sábado, novembro 18, 2006

Relatórios de observação/avaliação Psicológica

Na quinta-feira passada estive a apresentar uma comunicação nas I Jornadas Ibéricas da Doença de Alzheimer que decorreu em Almeirim organizada pela APFADA. No intervalo em conversa com um colega abordamos a questão complexa dos Relatórios de observação psicológica. O colega é da opinião que devemos reduzir ao mínimo a elaboração de relatórios escritos e privilegiar a transmissão da nossa opinião técnica em entrevista. E quando somos “forçados” a elaborar um relatório, ele deve ser o mais vago possível. Esta posição é fundamentada no risco de os nossos relatórios serem muitas vezes utilizados contra o paciente, principalmente, quando se trata de crianças. O relatório fica anexado ao processo da criança e ela passa a “carregar” aquele peso e poderá ser penalizada ou alvo de marginalização pela exposição desnecessária da sua vida privada e das suas dificuldades pessoais.

Compreendo os argumentos do colega e concordo que, infelizmente, os relatórios de observação/avaliação psicológica são muitas vezes utilizados de forma “perversa”; contudo parece-me que a resolução do problema não pode passar pela escusa do psicólogo a desempenhar uma função para a qual deverá estar devidamente habilitado. A produção de relatórios com informação vaga e ambigua, na minha opinião, não resolve o problema e favorece a opinião publica de que os psicólogos são técnicos demasiado subjectivos e que os seus relatórios “não acrescentam nada”.

Acho que devemos trabalhar no sentido de alertar os nossos pacientes/clientes para o facto de um relatório psicológico ser um documento confidencial e que apenas deverá ser permitida a leitura do mesmo por técnicos da área da saúde mental ou por outros profissionais obrigados ao sigilo. Acho que devemos chamar a atenção para os pais de que é da responsabilidade deles preservarem aquela informação como confidencial e não permitirem a sua anexação aos processos dos alunos.

Parece-me que também é fundamental divulgarmos a ideia de que uma observação psicológica tem uma validade limitada à data em que foi realizado o exame. A utilização de testes e instrumentos de avaliação aumenta a fiabilidade e o rigor da observação e análise, mas é preciso ter presente que toda a observação é condicionada e por isso apenas descreve as características de uma determinada pessoa num momento preciso da sua vida. A personalidade, as competências cognitivas, os traços psicopatológicos, os sintomas e os conflitos são mutáveis e transformam-se com o amadurecimento e a experiência de vida.

8 comentários:

Sónia Pereira disse...

Sou psicóloga clínica, trabalho com crianças e concordo a 100% com a sua opinião. Enquanto fizerem relatórios vagos, que não digam nada de novo, os psicólogos não terão qualquer credibilidade.

O pedido de um relatório exige, na minha opinião, uma avaliação rigorosa da criança, com testes aplicados cuidadosamente e com muitas horas de trabalho em casa para interpretação dos resultados.

O relatório deve oferecer informações sobre as dificuldades, os pontos fortes e as estratégias de intervenção. É verdade que por vezes o relatório serve apenas para arquivo num dossier que ficará esquecido, mas também há casos em que o professor pede, de facto, uma ajuda e quer obter informações sobre formas de ajudar o aluno a progredir nas suas aprendizagens.
Sónia Pereira

José J.C. Serra disse...

Um comentário relativo à imagem e não ao texto. Há várias razões pelas quais não se deve publicar (em jornal, capas de livros, filmes, jornais, etc.) as placas do teste de Rorschach. Uma delas é, sem dúvida, a habituação que eventuais clientes podem sofrer, alterando, deste modo, o efeito «surpresa» (um elemento importante a ter em conta na análise das respostas à prancha) e o tempo de reacção.
Seria mais indicado colocar uma imagem que mimetize as pranchas, mas que se veja que é completamente diferente. Vejam o que podem fazer a este respeito.

Ana Almeida disse...

Olá, José Serra. Bem-vindo ao Salpicos.
Agradeço o seu comentário e a sua chamada de atenção. Concordo consigo, realmente não devemos banalizar as imagens do Rorschach, nem de nenhum outro teste, sob pena de os testes perderem parte da sua utilidade. As pranchas do Rorschach estão muito banalizadas, actualmente são já quase uma espécie de símbolo das técnicas projectivas. Encontrei a imagem que tinha colocado neste post (a 1ª prancha do Rch) na Internet. Mas concordo consigo e efectivamente foi mal escolhida a imagem anterior, devemos ser nós, os psicólogos, os primeiros a proteger os nossos instrumentos. Obrigado pelo alerta. Já substitui a imagem.

Eliana Vilaça disse...

Bom, de facto este tema nunca me deixa indiferente e levanta inúmeras questões. É da minha opinião que o paciente beneficia dos relatórios, é menos provável que possa ser prejudicado se o nosso trabalho for feito com responsabilidade e maturidade. Se for para fazer relatórios vagos, mais vale então que não os façamos, pois esses relatórios só servem para instalar a confusão e a meu ver, são uma falta de respeito pela nossa profissão e sobretudo por quem fez o pedido. Os nossos relatórios devem ser precisos, devem ir de encontro ao pedido da avaliação, sem contornar a questão, nem tão pouco fornecer informação desnecessária que exponha o paciente ou cliente. A linguagem dos relatórios deve ser técnica e psicológica, mas deve sobretudo ser perceptível a outros técnicos ou a quem que fez o pedido.
Mas, mais do que dar a minha opinião acerca deste assunto, eu queria mesmo era instalar a confusão / discussão.
Então lanço as seguintes questões: O paciente deve ter acesso ao seu próprio relatório? Como se faz um diagnóstico compreensivo, depois de termos obtido informação (determinante no diagnóstico) por parte do paciente, que este quer que seja confidencial? Que informação deve ser transmitida num relatório, até que ponto temos o direito de expor até ao pormenor mais sórdido da vida do paciente, para fazer por exemplo um relatório para reforma? Até onde podemos ir para obter informações importantes para um relatório (por exemplo os médico-legais)?

Para terminar e por curiosidade, hoje mesmo tive em mãos um relatório de avaliação psicológica que decrevia vários resultados, com as típicas percentagens, que só percebe quem conhece a prova, e que nem o nome das provas tinha! Eu sou psicóloga e não percebi, seria esse o objectivo?!

Cleopatra disse...

OLá! Boa noite!
Já tenho o vosso LInk
Finalmente consegui colocar Links.
Volto depois com mais tempo.

ali_se disse...

Eu gostaria de validar positivamente a psicologia em suas novas formas de terapia, etc., mas é-me impossível com tudo o que aqui se tem dito, e quanto mais leio o que aqui se escreve, mais vem confirmar o que eu já duvidava há algum tempo, ou seja, está a intrometer-se sem fundamentos e sem provas dadas, em assuntos do psíquico e do sensível, que pode danificar e chegar ao ponto de destruir completamente estruturas importantes do SER, retirando-lhe a possibilidade e capacidade de com toda a autonomia e liberdade viver saudavelmente com o «sentir» e o «pensar», em que com todas estas interferências de comandos e regras estereotipizantes de uma qualquer interesseira ordenação-social, torna-se mas é numa desordeira, desordenante, por tentar contrariar e prejudicar a ordem natural e intrínseca do Ser em direcção a um Bem-Comum!...
Cumprimentos e muito obrigada
Alice Valente

Sandra F. disse...

Boa Noite.Gostaria de vos congratular pelo blog, é a primeira vez que por aqui passo, e concerteza que irei voltar. Acerca dos relatórios... considero que a avaliação psicólogica é um acto técnico que exige muito professionalismo, dai sou defensora que qualquer avaliação deva ser realizada com o consentimento do cliente, correndo o risco de o mesmo não aceitar, devendo este ser clarificado acerca dos objectivos a que se propoe essa avaliação.Se o cliente deverá ter acesso ao relatório?Porque não? Se atendermos aos Direito do Doente defendidos pela Saúde, qualquer cliente/paciente ou alguém da sua familia deverá ser informado correctamente sobre a sua situação clinica. Aqui talvez se coloque mais a questão de como o técnico fará para transmitir essa informação ao cliente. A psicologia deverá ser defendida para que possa ter credebilidade, e por isso defendo que qualquer técnico deverá reconhecer as suas limitações e capacidades para que possam exercer um bom trabalho.

Sílvia Carvalho disse...

Boa noite. Acabei de ler cuidadosamente todas as opiniões, concordando plenamente com umas e nem tanto com outras... Mas em Psicologia é mesmo assim.

Há aqui questões muito sérias que se levantam quando lemos os comentários dos colegas, nomeadamente no que respeita a questões de ética e deontologia. Antes de emitirmos a nossa opinião, devemos ponderar seriamente nas consequências que isso pode trazer. Quanto às normas, informações, considerações e cuidados a ter na elaboração de um relatório, tenho modelos que variam imenso entre si. Tudo depende, claro, do propósito do mesmo, dos destinatários, dos objectivos, etc... Não hesitem em pedir qualquer coisa , se alguma vez precisarem.

Aqui entre nós, psicólogos clínicos, até podemos dizer "aplicar testes", mas não fica bem num relatório... Há terminologias mais adequadas.

Para terminar, gostava só de apelar ao respeito de todos os colegas pelas mais diversas correntes ideológicas da psicologia. Todas elas existem e funcionam (melhor com uns, não tão bem com outros...)
Nunca se esqueçam do veredicto do Pássaro DODO: "Todos ganharam e todos merecem ter prémio." Nós somos eficazes, nem que o Eysenck ressuscite! :)